Idosos que moram sozinhos com seus animais de estimação: quatro histórias de amor e parceria

Adalia, Orlando, Bernadete e Léa falam sobre a importância de seus mascotes em um momento especial da vida

A bolotinha branca cativou Adalia Ribeiro de Oliveira pela sapequice: de toda aquela ninhada da raça maltês, era a mais arteira. Virava o pote d’água, molhava-se, por vezes até entrava no pote. Hoje com oito anos, a cadela Luma, com uma franja que lhe cobre os olhos, é um grude só com a aposentada. Acomoda-se no colo da dona para ver televisão, chora quando fica sozinha, pede pão na hora do lanche da noite. Além de todos os predicados do típico cão companheiro, Luma se destaca por uma façanha.

Anos atrás, em uma manhã de domingo, a empresária Kátia Esteves, 54 anos, sobrinha e vizinha de Adalia, percebeu os latidos incessantes de Luma. Deu-se conta do adiantado da hora – era perto do meio-dia –, muito tarde até para os padrões da idosa, que gosta de dormir bastante. Devido ao alto volume da TV, à conversa da família e à algazarra dos outros cachorros, Kátia não sabe precisar por quanto tempo Luma tentou chamar a atenção até que alguém finalmente reagisse a seu alerta. Ao se aproximar da casa da tia, a sobrinha enxergou a mão de Adalia através do vidro da porta, perto do chão – depois de passar mal e cair, a senhora, sem conseguir falar, foi se arrastando até a abertura, tentando sair em busca de socorro. Luma latia em desespero, olhando para Adalia e para a porta, alternadamente. Kátia teve de quebrar o vidro com uma ferramenta para conseguir entrar. Levada para o hospital às pressas, Adalia passou 40 dias internada, recuperando-se de um acidente vascular cerebral (AVC). A rapidez do atendimento foi determinante para o desfecho.

– Como é que pode, né? Aquilo era um pedido de socorro – surpreende-se Adalia, hoje com 77 anos, ao recordar o episódio, afagando a barriga cor-de-rosa da mascote, que repousa em seu colo. – Ela salvou a minha vida.

Enquanto a aposentada esteve no hospital, as duas sofreram. Em casa, Luma se mostrava abatida e com pouco apetite. No Beneficência Portuguesa, Adalia enfrentava dificuldade em vencer o tempo.

– Um dia significava um mês para mim – descreve.

Luma despertou do desânimo ao ouvir a voz de Adalia chegando no dia da alta. Correu até o carro para recepcioná-la, latindo sem parar. A relação entre ambas se estreitou ainda mais. Vigilante, a cadela mantinha-se ao lado da aposentada, que passou por sessões de fisioterapia para recuperar os movimentos. Luma só tolera o afastamento da dona em um único momento do dia.

– A mãe vai almoçar, tá? – avisa Adalia ao sair em direção à residência da sobrinha.

A cadela parece compreender que a saída será rápida, que a “mãe” não vai longe, e não faz lamúrias. Na hora de deitar, Luma ocupa um travesseiro ao lado de Adalia na cama.

– Ela ronca? – questiona a repórter.

– Não – responde Adalia.

– E a senhora?

– Não sei, ela nunca reclamou – diz ela, rindo. – Somos boas de cama!

Além de Adalia e Luma, ilustram esta reportagem outras três duplas que mantêm uma afinada parceria. Orlando, Bernadete e Léa também são idosos que moram sozinhos com seus animais de estimação – Ugly, um felino preto resgatado da rua, o cão pequinês Lorde e a gata persa Kika. Com uma população cada vez mais longeva e configurações familiares variadas – por exemplo, os casais têm menos filhos ou até não os têm, e as uniões já não duram para sempre –, não é incomum envelhecer assim. Adalia é a remanescente de um modelo hoje incomum: solteira, teve como ocupação cuidar dos pais.

O limite é dado pelo corpo – em certo ponto, é natural que o idoso necessite da companhia e do auxílio de familiares ou outros cuidadores para dar conta das tarefas do dia a dia e para viver em segurança, evitando acidentes e dispondo de auxílio rápido no caso de uma emergência. Com o avançar dos anos, é cada vez mais desafiador manter a autonomia e a independência.

É mais fácil encontrar mulheres morando sozinhas na terceira idade. Além de a expectativa de vida delas ser superior – 79,1 anos contra 71,9 dos homens, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) –, elas tendem a lidar melhor com a separação e a viuvez, não necessariamente partindo para outro relacionamento, de acordo com a observação de especialistas que lidam com essa faixa etária. Elas se ocupam de seus afazeres e seus afetos, enquanto eles são menos tolerantes à solidão. ZH comprovou na prática a dificuldade de encontrar exemplos masculinos para estas páginas – surgiram muitas histórias de mulheres vivendo com seus mascotes, mas não de homens.

– Vou te dizer uma coisa: homem sozinho fica louco – confidenciou um viúvo de 89 anos sondado para uma entrevista, ao justificar que não se encaixava no perfil pretendido porque havia arranjado uma nova companheira.

Os bichos não substituem as imprescindíveis relações com parentes e amigos, mas preenchem uma lacuna importante na rotina. Com frequência, o velho volta a exercitar habilidades elementares de cuidado e responsabilidade com o outro ao tomar conta de um gato ou de um cachorro, décadas depois de ter feito isso com os filhos e os netos quando pequenos. O idoso que já é avô vira “pai” ou “mãe” novamente. Em casos de depressão, muitas vezes o animal dá novo sentido à existência.

– Ter um animal que traga afetividade, convívio, interação é bom. Diminui a sensação de solidão, melhora o humor, dá uma função para o idoso. Ele passa a ser útil e necessário para outro ser vivo e tem, em contrapartida, o carinho e o afeto do animal. É uma razão para continuar vivendo – avalia Eduardo Garcia, geriatra e pneumologista da Santa Casa e professor da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA).

“É velho que nem eu!”

Orlando Schnell, 77 anos, já era muito apegado a Ugly, 15 anos, quando a viuvez o aproximou ainda mais do bichano. Elza, que morreu de câncer em 2014, aos 73 anos, também gostava do mascote, mas lhe impunha limites: nada de entrar no quarto do casal, dormir na cama, subir na pia. As proibições foram sendo revogadas pelo aposentado. O felino agora se deita junto de Orlando para a sesta, aconchega-se para ver os jogos do Grêmio e do Inter – diz-se que também torce pelo Tricolor e seca o rival – e tem um banquinho junto ao balcão da cozinha para lhe facilitar a subida rumo ao pote de água, sobre a pia. Aonde Orlando vai, Ugly vai atrás.

– Ele é um grude comigo – conta o aposentado.

Para não ficar longe do pet, Orlando resiste em viajar. Prefere sair nos dias de semana, período em que o gato terá a companhia da empregada doméstica e também contará com as visitas de Adriana, 45 anos, filha de Orlando, que trabalha como pet sitter.

– Meu pai e o Ugly são meus clientes mais difíceis – diverte-se ela.

Adriana procura seguir todas as determinações. Além de ração, Ugly gosta de carne, frango, atum, presunto e requeijão. Há certas peculiaridades a serem respeitadas na hora de servir alguns dos acepipes. A carne tem de ser colocada em papel-alumínio ou guardanapo, e o requeijão, sobre uma bolacha Maria. Outra nota importante: não é qualquer requeijão, e há de se promover um revezamento de rótulos, porque ele enjoa.

– Hoje em dia estou dando Santa Clara. Antes ele gostava do Elegê – especifica Orlando, provocando gargalhadas na filha.

Ugly chegou a Orlando pelas mãos de Adriana. Foi ela quem resgatou o felino da rua e, quase de imediato, decidiu ficar com ele. O gato mudou de mãos após o veraneio de 2003, quando passou uma temporada na residência de praia dos Schnell, em Imbé. Com uma vida atribulada, Adriana, também jornalista, lamentou a má sorte do bicho com a retomada da rotina na cidade:

– Coitado, agora ele vai para um apartamentinho pequeno… Ficar sozinho o dia inteiro…

A troca então se oficializou: o pretinho foi para o apartamento de Orlando e Elza, mais amplo, onde teria companhia constante. Para Orlando, Ugly é “meu guri” e “cara” – há alguma resistência quanto ao nome, que o aposentado considera um tanto injusto. Em inglês, ugly significa “feio”, alcunha divertida que parecia adequada ao filhotinho esquisito quase 16 anos atrás.

– Na época em que eu o conheci, ele não era feio – reclama o aposentado.

Quando jovem, Ugly se aventurou com a gataria da vizinhança no Litoral – um dia, misturou-se a outros gatos pretos, e até hoje a família brinca não saber se o gato que voltou para casa era o mesmo que saiu –, caiu na piscina, escalou muros altos, derrubou árvores de Natal. Agora, está mais quieto, resignado às limitações da velhice. Apesar de dois episódios recentes – um resfriado e uma alergia de pele –, tem boa saúde. De tempos para cá, vem manifestando medo de temporais – em noites de tormenta, mia sem cessar, até que o dono o acalme. Orlando consultou uma tabela que equipara a idade dos felinos à dos humanos e descobriu que Ugly soma praticamente os seus mesmos 77 anos.

– É velho que nem eu! – graceja.

Parceria nas leituras

Localizar uma poça de xixi no chão é uma das tarefas mais difíceis no dia a dia de Bernadete Vidal, 67 anos. Ela se guia pelo cheiro, aproximando-se devagar, sempre sob a tensão de calcular mal e pisar em cima do que Lorde, nove anos, não conseguiu segurar para fazer na rua.

– Ele fez xixi… fez, né? Tá sentindo?

De alguma maneira que encanta e emociona a aposentada, Lorde aprendeu que, com ela, a comunicação precisa incluir sons ou contato físico. Não basta abanar o rabo ou “fazer bocão”. Quando chove e o passeio é suspenso, o cão pequinês se queixa para a dona – rosna, ronca, se esfrega ou se encosta nela, demonstrando insatisfação. Bernadete então orienta o mascote a se aliviar sobre folhas de jornal. Já foram muitos os incidentes com o “número dois”: desavisada, a idosa esmagava cocôs do cachorro pelo apartamento onde vivem no bairro Cristal, em Porto Alegre.

– Dizem que dá sorte, que é dinheiro! – comenta ela, rindo. – Tô rica!

Bernadete é cega de nascença. Vítima de catarata, enxergava muito pouco até que, adolescente, passou a não ver mais nada. Suas recordações são, mais do que imagens, sensações de uma infância ao ar livre em Cachoeira do Sul: subir em árvores, comer ovos crus direto do galinheiro, colher laranjas e cenouras, brincar com cachorros, gatos, porcos e ovelhas. Uma de suas lembranças mais ternas é da avó Lídia servindo café da tarde para os cães da família, preenchendo os pratinhos com pedaços de pão embebidos em café com leite.

– Sempre fui “bicheira” – define Bernadete, que se graduou em Direito, participou da fundação da Associação de Cegos do Rio Grande do Sul (Acergs) e foi vereadora da Capital por dois mandatos, nos anos 1970 e 1980.

Primeiro existiram os mascotes Banzé, Fofinho e Brum-Brum – este último, um pequinês batizado em função do ronco que lembrava o barulho de um motor, chegou a Bernadete depois de ter a carreira de modelo de exposições abreviada pela perda de um dente. Lorde veio com 70 dias de vida. Escondia-se pelo apartamento, e Bernadete precisava pedir ajuda para encontrá-lo. O cãozinho era um furacão: roía cadeiras, poltronas, a cama. Alguns móveis se salvaram porque a dona os protegeu com plástico-bolha.

– Adoro essa coisa peluda para afofar. Eu tenho em casa uma bola de pelo e de alegria – derrete-se a aposentada.

Um livro infantojuvenil, O Pequeno Lorde, de Frances Burnett, serviu de inspiração para o nome do animal. A literatura ocupa grande parte do dia de Bernadete. No computador, ela armazena títulos digitalizados, consumidos com o auxílio de um leitor de tela (o software narra o conteúdo dos arquivos de texto). Adora obras policiais, de suspense e históricas. Lorde fica por perto, descansando e curtindo o ar-condicionado. Certa vez, uma história o intrigou – era um enredo que se desenrolava na Inglaterra, e a menção a personagens com títulos honoríficos atiçava o cachorro.

– A narração falava tanto em “lorde” que ele começava a resmungar, como quem diz: “O que querem comigo?” – lembra Bernadete.

Quando ela veste calças compridas e casaco, o cão entende que é hora de sair. Ela o chama para botar a coleira e ele vem. Bengala na mão direita, guia na esquerda, a tutora parte para a rua. E o pet faz sucesso: ganha afagos e é solicitado para fotos. A aposentada por vezes preocupa os passantes, que a advertem sobre o intenso fluxo de carros na Avenida Icaraí:

– As pessoas acham que os cegos andam perdidos no mundo, que não sabem onde estão. Caramba, se estou andando na beira da calçada é porque o cachorrinho quer fazer xixi!

Em duas situações, as voltinhas renderam sustos. Uma vez, tentaram lhe roubar Brum-Brum. Bernadete estava sentada na padaria quando o ladrão retirou o cachorro da guia. Solto, o cão se aproximou da dona, e uma funcionária do estabelecimento impediu que o crime se concretizasse. Com Lorde, aconteceu algo semelhante: em vez de um larápio, era um vizinho querendo pregar uma peça. De repente, Bernadete sentiu a guia frouxa. Pensou que a proteção tinha se arrebentado, até entender que o mascote estava no colo do vizinho.

– Quer me matar do coração, criatura? – protestou.

A aposentada descreve a aparência física do “docinho da mamãe” com base no que lhe dizem. Sabe que a pelagem tem múltiplas cores: vai do preto ao quase branco, passa pelo cinza, tendo também toques de amarelo e bege. Mas o essencial ela própria consegue definir, sem auxílio:

– É o meu companheirinho cão. Não imagino a vida sem ele.

A angústia da finitude

Os benefícios da convivência entre idosos e pets são inegáveis, mas é preciso prestar atenção a aspectos que podem provocar sofrimento em uma fase da vida já fragilizada por outros fatores. Coordenadora do Núcleo de Idosos do Estudos Integrados de Psicoterapia Psicanalítica (Esipp), a psicóloga Nara Castilhos destaca que um mascote de estimação gera custos, o que pode comprometer uma quantia significativa de um orçamento já reduzido após a aposentadoria ou a viuvez.

É provável que o dono tenha de lidar, à certa altura, com a morte do animal. Em muitos casos, a dor é tão intensa quanto aquela sentida no momento em que um amigo ou familiar morre. O envelhecimento do idoso também é inquietante – encarar a finitude da própria vida pode provocar angústia. No caso de pessoas que vivem sozinhas com seus bichos, surge a preocupação sobre quem vai cuidar do animal quando elas não estiverem mais presentes.

– O medo provocado pela morte faz parte do ser humano: em relação a outros seres humanos, em relação aos animais e em relação a si próprio. É uma questão básica. Para lá vamos todos, só não sabemos quando – comenta Nara.

Nos encontros semanais com os integrantes do grupo de terceira idade que coordena, a psicóloga está habituada a ouvir relatos sobre o quão benéfica é a presença de um mascote. Uma de suas pacientes, de 80 anos, ainda guarda vivas e positivas lembranças de um cachorro que faleceu três décadas atrás.

– Ela fala de forma saudosa, mas é uma lembrança feliz daquele amor – relata Nara. – Há pessoas que têm um afeto especial pelos bichinhos. Criar vínculos é vida, é troca. É bom em qualquer idade.

Léa Rohde, 85 anos, anda preocupada com Kika. A gata de 16 anos sempre foi supersaudável, nunca ficou doente (“Só teve pulga!”), mas, nos últimos tempos, parece não estar desfrutando de sua melhor forma. Desconfiada de que a persa pudesse ter catarata, por conta da aparência esbranquiçada do olho, a aposentada procurou um veterinário especializado em oftalmologia. O médico descartou a suspeita, mas receitou um colírio que, na opinião de Léa, deixou o bicho mais indisposto. À mesma época, Kika começou a recusar comida, esconder-se pelos cantos e apresentar dificuldades para caminhar – as patas traseiras pareciam fraquejar.

– Isso aí é da idade – tentou tranquilizá-la um dos filhos.

O mau estado geral do animal adiou a entrevista mais de uma vez. Léa também alegava não se sentir bem: dores pelo corpo, uma crise de labirintite.

– Sabe como é uma velha de 85 anos, né? – justificou a viúva ao telefone. – Mas o que me preocupa é ela. Não quero que ela sofra de maneira nenhuma.

Acostumada a viver apenas com Léa, Kika não gosta da presença de outros animais ou pessoas. Incomoda-a, especialmente, a voz de homens – ela se retira do ambiente se por acaso aparece um visitante do sexo masculino.

– Não sai de casa! Nesse ponto, é muito enjoada: não quer conhecer ninguém. Só gosta de mim – comenta Léa.

Nas duas visitas da reportagem, Kika se comportou bem. À exceção da evidente perturbação causada pelos cliques da câmera, que interrompeu seu sono em uma tarde fria, pareceu ignorar a presença dos estranhos. Léa contou a história de sua mais dedicada companheira desde o princípio: mostrou a certidão de nascimento, as recomendações anotadas sobre os cuidados iniciais, a foto exibindo a pelagem exuberante ainda nos primeiros anos de vida. Houve pelo menos duas tentativas de lhe dar um companheiro: Kika não aceitou um gato angorá (que foi revendido) e não deu bola para um hamster (que morreu em seguida).

Léa evita se ausentar. Quando viaja, procura ir num dia e voltar no seguinte, ainda que uma das netas se comprometa a cuidar do animal. Nas raras vezes em que sai, a aposentada deixa o pensamento em Porto Alegre: imagina a gata vagando triste pelo apartamento do bairro Bom Fim, procurando pela tutora. Até as idas ao supermercado são rápidas.

– Ela me preenche muito. É como se fosse um filho.

Ultimamente, parece que o bicho está mais próximo. Léa gosta de ler antes de dormir, hábito que a leva a adentrar as madrugadas com um livro ou jornal sobre o peito. Kika pede atenção, subindo sobre o corpo de Léa e empurrando com a cabeça o volume que a idosa segura nas mãos.

– Kika, a mãe tá lendo… Agora não – avisa a aposentada.

A gata dá meia-volta e se acomoda junto aos pés da cama. Instantes depois, tenta outra vez.

– Kika, eu já disse! Eu tô lendo.

Ela confessa que, na terceira tentativa, fica com pena e deixa a gata ficar.

– A Kika entende tudo que eu digo – garante, orgulhosa.

Quando está assistindo à novela, Léa por vezes recebe um abraço: Kika enlaça seu pescoço, com uma pata de cada lado, e repousa a cabeça no ombro da dona. Tanto carinho, na opinião da idosa, parece guardar uma mensagem implícita.

– Acho que ela sente que a hora dela está chegando. Ou a minha. Antes ela não era assim.

Léa conta que a gata de uma amiga viveu até os 21 anos. Comenta também que sua família tem mais de um exemplo de longevidade – sua avó materna faleceu aos 99 anos. A matemática dos afetos a deixa pensativa:

– Eu falo com o homem lá de cima e peço para Ele me levar antes dela. Não quero vê-la morrer.

Fonte: Jornal Zero Hora